O cenário global de ciberameaças avança em direção a uma transformação estrutural. De acordo com o relatório Cyber Threat Intelligence Trends, elaborado pela NTT DATA e referente ao primeiro semestre de 2026, os atacantes estão priorizando ataques mais discretos e prolongados, voltados a maximizar o impacto econômico, estratégico e reputacional. Mais do que ataques imediatos, o foco se desloca para a persistência, o sigilo e a capacidade de exercer influência de forma contínua nos ambientes comprometidos.
O estudo evidencia que o ciberespaço é hoje um ambiente estratégico no qual se articulam conflitos econômicos, políticos e de segurança. As tensões geopolíticas, a fragmentação tecnológica e as mudanças nas alianças internacionais impactam cada vez mais as infraestruturas digitais, as cadeias de suprimentos e os setores críticos. Isso dificulta a identificação dos responsáveis pelos ataques, complica a cooperação entre nações e aumenta o nível de risco para governos, setores estratégicos e empresas privadas. Ao mesmo tempo, o ciberespaço se tornou um ambiente habitual de confronto indireto, no qual é possível exercer pressão e provocar disrupções sem chegar a um conflito militar aberto.
Esse cenário se intensifica com a crescente incorporação da inteligência artificial como multiplicador estratégico. Sua integração em operações de ciberespionagem, desinformação e automação ofensiva reduz as barreiras de entrada, acelera os ciclos de ataque e amplia o alcance das campanhas híbridas, tanto por parte de Estados quanto de agentes criminosos avançados.
Por outro lado, o ecossistema criminoso passou por uma fragmentação significativa. A queda de grandes fóruns clandestinos e marketplaces centralizados não reduz a atividade ilícita, mas a redistribui para mercados especializados, brokers de acesso inicial e canais privados mais opacos, dificultando o monitoramento e a obtenção antecipada de inteligência sobre ameaças.
Em paralelo, o ransomware e os modelos de extorsão baseados em dados atingiram um alto nível de maturidade operacional. As campanhas combinam automação, roubo seletivo de informações sensíveis, pressão pública escalonada e exploração da reputação das vítimas. Cresce o uso de técnicas “silenciosas”, com maior abuso de serviços legítimos, especialmente cloud e SaaS, para manter a persistência e realizar movimentos laterais quase sem deixar rastros.
Em uma análise por setores, aqueles que registraram o maior número de incidentes foram administração pública e governos (3.343 ataques no semestre), instituições de ensino (1.140), serviços financeiros (957), tecnologia da informação (802) e telecomunicações (614). De modo geral, estima-se que o impacto econômico do cibercrime seja de aproximadamente US$ 10,5 trilhões por ano.
Embora sejam observados avanços no marco legal e regulatório, operações policiais internacionais de alto impacto e uma melhoria progressiva das capacidades de defesa das organizações, a capacidade de adaptação dos agentes mal-intencionados supera esses avanços e evidencia uma lacuna persistente entre a conformidade regulatória e a resiliência operacional efetiva.
“Estamos diante de uma mudança de paradigma: os ataques já não buscam apenas interromper, mas influenciar decisões, processos e estratégias de longo prazo. A gestão eficaz de riscos exige uma abordagem integrada, orientada à detecção contextual, à resiliência e à antecipação estratégica diante de ameaças persistentes e altamente adaptativas”, afirma María Pilar Torres Bruna, Head of Cybersecurity, NTT DATA Iberia, International Organisations, LATAM and Consulting in Benelux and France.
Diante de ciberameaças cada vez mais persistentes e sofisticadas, o relatório da NTT DATA ressalta a necessidade de ir além da conformidade regulatória. Antecipar riscos, compreender o contexto e tratar a cibersegurança como uma função estratégica serão fundamentais para construir uma resiliência digital efetiva e sustentável.